O olho que tudo vê é uma figura antiga, que atravessa séculos e culturas, e ainda hoje se apresenta em símbolos que muitas vezes ignoramos. Está, por exemplo, estampado na nota de um dólar americano. Se você tem uma nota de um dólar – o que é raro hoje em dia, já que a maioria anda com as de cem – vai encontrar essa imagem: um olho dentro de uma pirâmide. Esse símbolo, profundamente ligado à Maçonaria, representa o “olho que tudo vê”, um símbolo da pré-ciência e onisciência de Deus, aquele que tudo observa.
A pirâmide em si carrega ainda outros significados. Os 13 andares representam as 13 colônias que formaram os Estados Unidos. Há ali um testemunho histórico e espiritual, que liga o nascimento de uma nação a uma ideia de vigilância superior. E hoje, ironicamente, vivemos numa era em que a tecnologia tenta replicar isso: microfones, câmeras, inteligência artificial… tudo nos “ouvindo”, “assistindo”, “respondendo” aos nossos comandos. Mas o que parece ser um controle absoluto e tecnológico nada se compara ao olhar de Deus, que tudo vê, não apenas o exterior, mas o íntimo do coração.
A onisciência de Deus é uma verdade profunda e preciosa. Ela não foi inventada por filósofos ou teólogos apenas, mas revelada ao longo da história da salvação. Desde o relato de Gênesis, onde Deus cria tudo do nada, inclusive o ser humano à sua imagem e semelhança, passando pela revelação ainda mais profunda por meio de Jesus Cristo, o Filho. Essa revelação aponta para um Deus que nos vê com amor, com propósito, com clareza – e que age em nossa direção.
Quando compreendemos essa verdade, somos confrontados com outra realidade: a cegueira espiritual. Em João 9, a partir do verso 35, Jesus encontra um homem que havia sido cego de nascença. Não apenas fisicamente cego, mas também símbolo de uma cegueira maior: a espiritual. Jesus diz: “Eu vim a este mundo para julgar, a fim de que os cegos vejam, e os que veem se tornem cegos.” Ao ouvir isso, alguns fariseus perguntam: “Acaso nós também somos cegos?” Jesus responde: “Se vocês fossem cegos, não seriam culpados de pecado; mas agora que dizem que podem ver, a culpa de vocês permanece.”
Essa resposta é poderosa. Ela revela que a maior cegueira não é a física, mas aquela que impede alguém de reconhecer a própria limitação espiritual. O cego de nascença vivia não apenas com a dor de não ver o mundo físico, mas também com o peso de uma crença religiosa equivocada: de que sua condição era resultado de um pecado – dele ou de seus pais.
Muitas vezes ainda carregamos essa lógica perversa: se alguém está doente, se perdeu um emprego, se o casamento terminou, é porque pecou. Quantas vezes ouvimos, inclusive dentro da igreja, que há uma maldição hereditária? Que se seu pai ou avô cometeu algo, isso se transfere diretamente a você. Essa crença equivocada não apenas nos prende, mas nos afasta da verdade libertadora do evangelho.
Jesus, ao curar o cego, nos mostra que há uma nova narrativa. Ele diz: “Não foi por causa do pecado dele ou de seus pais. Isso aconteceu para que a glória de Deus se manifestasse na vida dele.” Que resposta maravilhosa! Isso significa que até mesmo as situações mais difíceis, mais injustas, mais dolorosas podem se tornar palco para a manifestação da glória de Deus.
Quantas vezes você já se sentiu cego? Incapaz de entender o que está acontecendo ao seu redor? Sem clareza sobre o seu futuro? O Evangelho é a boa notícia de que há esperança, de que há luz, de que há cura. Mas também é uma mensagem que responsabiliza: ela exige fé, arrependimento, abertura de coração. O cego foi curado, sim, mas a cura não veio sem confronto. Não veio sem tensão com os religiosos da época. Não veio sem escândalo.
Aliás, o milagre verdadeiro quase sempre escandaliza os olhos religiosos. Talvez por isso muitos prefiram se apegar a doutrinas humanas, a tradições, a fórmulas antigas que, no fundo, apenas mantêm as pessoas cativas em sua cegueira. O Evangelho é desconfortável porque ele ilumina. Ele não apenas cura, mas expõe. Ele nos mostra que não adianta dizermos que vemos, se vivemos como cegos.
E aqui, é necessário um alerta: em muitos contextos, a religiosidade não produz luz, mas mantém as pessoas em escuridão. E nós mesmos podemos cair nesse ciclo, flertando com os apetites da carne, desejando as paixões do mundo, vivendo um cristianismo superficial, onde o coração vai se tornando insensível, os olhos vão se fechando – como uma catarata espiritual – e a alma se acomoda na cegueira.
Precisamos nos perguntar: o que temos visto de Deus na nossa vida? Você consegue ver a ação de Deus todos os dias, nas pequenas coisas? Ou apenas quando algo grandioso e extraordinário acontece? Você enxerga a graça de Deus ao acordar, ao respirar, ao ver sua família protegida, ao ter alimento na mesa?
Esse é o convite do Evangelho: abrir os olhos. Reconhecer que, sem Jesus, estamos todos cegos. Não importa o quanto saibamos, o quanto estudemos, o quanto participemos de cultos e programações religiosas. O conhecimento teológico sem revelação é apenas letra morta. É possível saber hebraico, grego, escatologia e continuar cego para a essência do Evangelho, que é vida em Cristo.
Jesus chama os religiosos da época à responsabilidade, e continua chamando hoje. Ele confronta a lógica que diz que o sofrimento é sempre resultado de culpa, e apresenta uma nova visão: a do sofrimento como oportunidade para a glória de Deus se manifestar. Ele pega o cego, alguém marginalizado, descartado, desacreditado – e o torna testemunha da luz.
E sabe o que acontece quando você passa a enxergar? As pessoas vão duvidar. Vão dizer que não é possível. Vão perguntar se era verdade mesmo. Vão chamar seus pais. Vão interrogar. Porque o milagre incomoda. Porque a graça constrange. Porque a liberdade é um escândalo.
Mas quem foi tocado por Jesus sabe: eu era cego, e agora vejo.
E é isso que realmente importa. Não os aplausos, não a aceitação, não a compreensão dos outros. A única coisa que importa é que a luz chegou. E quando a luz chega, tudo muda.
Por isso, que os nossos olhos sejam abertos. Que possamos ver não com os olhos naturais, mas com os olhos do coração. Que a graça de Deus abra os nossos sentidos, para que vejamos a beleza do Evangelho em cada detalhe da vida. E que, mesmo nas trevas mais densas, saibamos que há sempre uma fresta, uma abertura mínima pela qual a luz pode entrar. Porque Deus continua fazendo cegos enxergarem – para a glória do seu nome.