Muitas vezes ouvimos a famosa expressão: “Deus ajuda quem cedo madruga.” Essa frase, de certo modo, resume uma mentalidade bastante presente na nossa cultura — a de que o trabalho árduo é sempre sinônimo de bênção e sucesso. No entanto, quando olhamos à luz das Escrituras, percebemos que a relação entre trabalho, dinheiro e o senhorio de Deus em nossas vidas é muito mais profunda e complexa. É sobre isso que vamos refletir.
Ao iniciarmos essa reflexão, somos levados diretamente ao ensino de Jesus em Mateus 6, quando Ele diz: “Não acumulem para vocês tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destróem e onde os ladrões arrombam e furtam. Mas acumulem para vocês tesouro nos céus, onde a traça e a ferrugem não destróem, onde os ladrões não arrombam nem furtam.” Jesus não estava simplesmente falando sobre dinheiro. Ele estava falando sobre um trono. O trono do coração humano.
Por isso, precisamos falar sobre dinheiro na igreja. Embora esse tema, infelizmente, tenha sido distorcido por muitos ao longo do tempo — com escândalos e abusos de líderes que exploram a fé das pessoas em benefício próprio — o silêncio sobre esse assunto também tem gerado consequências graves. Deixar de ensinar o povo de Deus sobre finanças à luz da Bíblia abre espaço para que o coração do cristão seja governado pelo dinheiro, pelas apostas, pela ambição desordenada e por falsas promessas de enriquecimento rápido.
Uma pesquisa do Datafolha expôs uma triste realidade: 20% dos evangélicos no Brasil participam de apostas diariamente, enquanto entre os católicos o índice é de 14%. Quando olhamos para loterias e jogos de azar em geral, os números continuam alarmantes. A mentalidade da aposta se alimenta da ilusão de que é possível enriquecer sem esforço, sem trabalho — um atalho perigoso e enganoso.
Diante disso, precisamos resgatar a visão bíblica sobre o trabalho. Para isso, voltamos ao início de tudo, em Gênesis 2:15: “O Senhor Deus tomou o homem e o pôs no jardim do Éden para cultivá-lo e guardá-lo.” O trabalho não começou com a queda do homem. O trabalho não é consequência do pecado. Antes mesmo do pecado existir, Deus já havia dado ao homem o mandato de cultivar e guardar o jardim. A palavra hebraica usada para “cultivar” é avad, que também pode ser traduzida como trabalhar ou servir. O trabalho foi, desde o princípio, parte do bom plano de Deus.
Com a queda, o trabalho não deixou de existir, mas tornou-se penoso: “Com o suor do teu rosto comerás o teu pão.” (Gênesis 3:19). O pecado corrompeu nossa percepção sobre o trabalho. Aquilo que deveria ser expressão de alegria e adoração ao Criador passou a ser visto como fardo, como maldição. Tanto que, no mundo antigo, o trabalho era associado à condição de escravidão. Até mesmo a etimologia da palavra “trabalho” em algumas línguas deriva de instrumentos de tortura, como o tripalium.
Mas o apóstolo Paulo, ao escrever aos tessalonicenses, nos lembra da dignidade que existe no trabalho: “Esforcem-se para ter uma vida tranquila, cuidar das coisas que lhes dizem respeito e trabalhar com as próprias mãos.” (1 Tessalonicenses 4:11). Trabalhar com as próprias mãos é viver de modo digno. É obedecer ao chamado de Deus para servir, cuidar e criar junto com Ele.
Muitas vezes, imaginamos que só determinados trabalhos têm valor espiritual: o pastor, o médico, o bombeiro, o policial, o missionário. Mas cada profissão, cada atividade honesta que realizamos pode ser um campo de serviço a Deus. O problema surge quando o trabalho deixa de ser meio de glorificar a Deus e passa a ser um ídolo. Quantos não estão escravizados pelas exigências do mercado? Jornadas exaustivas, metas inalcançáveis, constante insatisfação e ansiedade. Trabalham 12, 14 horas por dia, sacrificando a saúde, o casamento, a família e até mesmo sua vida espiritual, sempre na busca de “algo a mais”.
Nesse cenário, o trabalho vira senhor, e o dinheiro passa a ocupar o trono que deveria ser de Cristo. Jesus foi direto: “Ninguém pode servir a dois senhores; porque ou há de odiar a um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e a Mamom.” (Mateus 6:24).
Quando o dinheiro assume o senhorio da nossa vida, caímos na armadilha da autossuficiência. Passamos a crer que tudo o que conquistamos veio unicamente do nosso esforço. Sim, entregamos currículos, estudamos, batalhamos. Mas foi Deus quem abriu as portas. Foi Ele quem deu a saúde, a força, o sustento diário. Como disse o pregador: “Não há fardo mais pesado do que viver confiando apenas em si mesmo.”
O Salmo 127 nos adverte: “Será inútil levantar de madrugada, dormir tarde e comer o pão que conseguiram com tanto esforço; aos seus amados Ele o dá enquanto dormem.” Deus não nos chama para a ansiedade frenética, mas para a confiança em sua providência. Ele supre nossas necessidades e nos convida a participar da sua obra com contentamento e paz.
Jesus, em Lucas 12:31-34, reforça esse chamado: “Busquem, pois, o Reino de Deus, e estas coisas lhes serão acrescentadas. Não tenham medo, pequeno rebanho, pois foi do agrado do Pai dar-lhes o Reino. Vendam o que têm e deem esmolas. Façam para vocês bolsas que não se desgastem, um tesouro nos céus que jamais se acabará, onde ladrão algum chega perto e nenhuma traça destrói. Pois onde estiver o seu tesouro, aí também estará o seu coração.”
No final das contas, a grande pergunta permanece: quem está sentado no trono do seu coração? O seu trabalho tem sido meio de glorificação a Deus ou se tornou um deus em si mesmo? O dinheiro dita suas decisões ou você permite que o Reino de Deus governe cada aspecto da sua vida, inclusive suas finanças?
A vida cristã nos chama a três posturas claras:
Primeiro, devemos nos alegrar com a provisão atual de Deus. Não viva sempre em busca do “próximo nível”, da “nova conquista”. Aprenda a ser contente com o que Deus já tem lhe dado.
Segundo, trabalhe com a consciência de que está servindo, cuidando e criando junto com Deus. Assim como Adão no Éden, somos chamados a exercer uma vocação criativa, colaborando com Deus na administração da criação.
Terceiro, abandone a autossuficiência e confie no nosso Bom Pastor. Entregue seus caminhos, suas preocupações, seus negócios, sua carreira, seus recursos nas mãos dAquele que nunca abandona o seu rebanho.
Que a graça de Deus nos conduza para que, ao final desta “Guerra dos Tronos”, possamos afirmar com confiança: Cristo reina sobre todas as áreas da minha vida, inclusive sobre o meu trabalho e minhas finanças.