O que é o melhor e o que é necessário

A reflexão sobre o que é melhor e o que é necessário parte de um ponto central: a liberdade humana para escolher e a sabedoria necessária para discernir entre aquilo que nos agrada e o que nos é realmente essencial. Desde os primeiros filósofos até os ensinamentos de grandes pastores, essa questão permeia nossa experiência e desafia nossa maturidade espiritual.

Iniciamos com uma reflexão sobre como a liberdade de escolher afeta cada um de nós. No supermercado, por exemplo, as crianças se veem rodeadas de doces e balas ao alcance das mãos, sendo guiadas pela imaturidade natural a buscar o que parece melhor naquele instante. Assim, aprendemos que o desejo pelo melhor muitas vezes está ligado a uma perspectiva limitada e infantil. Se deixamos esse anseio inicial nos guiar, nunca amadurecemos espiritualmente, pois a visão de “melhor” aqui é voltada para o imediatismo, para o que agrada ao “eu”. Essa postura, no entanto, pode se estender para a fase adulta, transformando homens e mulheres em “adolescentes com cabelo branco”, que se atêm ao que desejam para si mesmos, deixando de lado o que é mais elevado: o necessário.

Ao atravessarmos essa rua da imaturidade e irmos para a calçada do necessário, Paulo nos conduz a um entendimento mais profundo sobre o que realmente importa. No livro de Filipenses 1:19, ele escreve: “Sei que vou permanecer e continuar com todos vocês para o seu progresso e alegria na fé”. Esse é o desejo de alguém que entende que sua missão vai além do seu próprio conforto. Em suas palavras, Paulo nos mostra que o “necessário” está vinculado ao que Deus determinou, àquilo que precisa ser feito em Seu tempo e modo. É um chamado a nos desprendermos do que é apenas desejável, e abraçarmos a vontade de Deus para nossa vida, um compromisso que requer entrega e, muitas vezes, sacrifício.

Paulo, que escreveu Filipenses enquanto estava preso, ilustra o que é viver a vida cristã na perspectiva do que é necessário. Encarcerado, ele expressa sua esperança na libertação, ancorada nas orações da igreja. Aqui, percebemos um homem que não é prisioneiro de sua situação, mas livre em sua fé, com a confiança plena em Deus. Essa liberdade interior vai além das circunstâncias externas, e Paulo nos ensina que sua prisão física não define seu espírito; ele está disposto a fazer o que é necessário para a expansão do evangelho, mesmo que sua situação pessoal seja difícil.

A verdadeira liberdade, portanto, não é a de seguir os próprios desejos, mas a de submeter-se a algo maior que si mesmo. No contexto espiritual, viver essa liberdade significa que estamos dispostos a abrir mão do “melhor” para abraçar o que é necessário. Esse é um dos pontos que define a maturidade cristã. Quando refletimos sobre a expressão de Paulo, “para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro”, vemos uma compreensão plena do propósito de Deus para sua vida. Ele não encara a morte com medo, mas com a convicção de que, ao morrer, estará com Cristo. Esse entendimento é fundamental, pois o que é necessário para nós, no fim, é aquilo que nos aproxima do propósito eterno que Deus tem para cada um.

Nesse contexto, temos grandes exemplos de homens de fé como Martin Lloyd-Jones e Tim Keller. No leito de morte, Lloyd-Jones pediu que parassem de orar pela sua cura, desejando entrar na glória de Deus. Já Tim Keller, que também faleceu recentemente, deixou um recado encorajador: “Não fiquem tristes, pois se Jesus ressuscitou, tudo ficará bem”. Ambos demonstram uma confiança semelhante à de Paulo, colocando o necessário — estar com Deus — acima de qualquer desejo de permanecer no mundo por mais tempo. Eles exemplificam o que significa realmente entender que o melhor para Deus é sempre o que é necessário para nós, pois nos leva de volta ao Seu amor.

Esse ensinamento também se reflete em nosso dia a dia. Quantas vezes sacrificamos nosso descanso ou preferências pessoais para realizar algo que é necessário para a família, o trabalho, ou a comunidade? Essa renúncia ao próprio conforto é, em muitos aspectos, a vivência prática da cruz. Quando Cristo foi ao Getsêmani e orou ao Pai dizendo “Se for possível, afasta de mim esse cálice”, Ele estava revelando que o melhor para Ele, como homem, seria evitar a dor. No entanto, ao aceitar a cruz, Ele nos ensina que o necessário é cumprir o propósito de Deus, mesmo que isso signifique sofrimento e renúncia.

Viver em busca do que é necessário implica estar aberto a Deus em todos os momentos, e muitas vezes significa que vamos contra a corrente da cultura ao nosso redor, que frequentemente prega o prazer imediato e a satisfação própria. A filosofia existencialista, como descrita por Jean-Paul Sartre, declara que “a existência precede a essência”, ou seja, o presente é mais importante do que qualquer coisa além dele. Entretanto, a Bíblia nos ensina que Deus tem um propósito eterno para cada um de nós. Quando caminhamos em direção a esse propósito, estamos buscando o necessário, aquilo que realmente importa, e que é duradouro, não apenas passageiro.

Cada escolha entre o “melhor” e o “necessário” pode ser vista na perspectiva de nossas responsabilidades diárias, especialmente quando optamos por sacrificar nosso conforto para atender às necessidades daqueles ao nosso redor. Todo pai e mãe, por exemplo, são constantemente colocados à prova nesse sentido. Quantos sacrifícios são feitos em favor dos filhos, quantas noites de sono são perdidas, e quantas decisões são tomadas com base não no que os pais desejam, mas no que as crianças precisam? É um reflexo do amor incondicional de Deus por nós. Ele enviou Jesus para viver entre nós e experimentar as dores humanas, mostrando que Ele conhece nossas limitações e fraquezas.

Esse amor é a essência do necessário. Deus nos deu um propósito e nos chama para viver de acordo com Ele, reconhecendo que, por mais que possamos desejar a facilidade e o conforto do “melhor”, o necessário nos leva à obediência, ao serviço e ao cumprimento do nosso papel no mundo.

Assim, que possamos olhar para nossa vida e pedir a Deus que nos ajude a viver com o foco no necessário, no que Ele espera de nós. Que possamos refletir, como Paulo, e dizer: “Senhor, estou pronto a viver para Ti, pronto a fazer o que é necessário para Tua glória e para o bem daqueles que o Senhor colocou no meu caminho”. Essa é a verdadeira liberdade e a verdadeira paz que encontramos em Cristo: viver não mais para nós mesmos, mas para o propósito de Deus, buscando aquilo que Ele determinou e cumprindo o necessário com alegria e gratidão.