Bem-vindo à igreja perfeita

Quando temos uma avaliação errada de nós mesmos, tendemos à arrogância. Isso acontece não apenas no que diz respeito aos nossos talentos, mas na maneira como enxergamos a vida. Achamos que somos os melhores pais, os melhores profissionais, os melhores cristãos. Quando acreditamos ser bons em algo, dificilmente admitimos que fazemos algo errado. Esse orgulho pode nos levar a uma vida onde nos tornamos independentes de Deus, confiando mais em nossas habilidades do que em Sua graça.

Desde a infância, aprendemos que há formas diferentes de fazer as coisas. Lembra de quando, ainda criança, tentávamos ajudar em casa e os adultos ficavam inquietos porque não fazíamos do jeito “certo”? Esse sentimento nos acompanha na vida adulta. Achamos que nosso jeito é o melhor e nos tornamos cegos para outras perspectivas. O mesmo acontece com nossa fé. Podemos nos acostumar tanto com a rotina da igreja que deixamos de perceber se realmente estamos vivendo o Evangelho ou apenas seguindo um conjunto de regras religiosas.

A Igreja de Laodiceia é um exemplo clássico desse problema. Laodiceia era uma cidade rica, cosmopolita, estrategicamente posicionada na rota comercial da Ásia Menor. Tinha infraestrutura invejável, produção de uma lã negra valiosa e uma escola de medicina famosa pela fabricação de colírios oftalmológicos. Porém, essa riqueza e autossuficiência afetaram a igreja local. Eles se achavam espiritualmente ricos, mas na verdade eram miseráveis diante de Deus.

Em Apocalipse 3:15-17, Jesus diz à igreja:

“Conheço as tuas obras, sei que você não é frio nem quente. Melhor seria que você fosse frio ou quente! Assim, porque você é morno — não é frio nem quente — estou a ponto de vomitá-lo da minha boca. Você diz: ‘Estou rico, adquiri riquezas e não preciso de nada’. Mas não percebe que é miserável, digno de compaixão, pobre, cego e nu.”

A mornidão de Laodiceia não era apenas indiferença espiritual, mas um estilo de vida autossuficiente. Eles tinham tudo: dinheiro, estabilidade, teologia aparentemente correta. Não havia falsos profetas, nem escândalos morais, nem doutrinas erradas. O culto era impecável, a música era cristocêntrica, o sermão era bíblico. Mas, apesar disso, Jesus quis vomitá-los.

O problema de Laodiceia era que o Evangelho não transformava seus corações além do culto. Eles confiavam na própria capacidade, no próprio sustento, na própria justiça. Sentiam-se independentes de Deus. Essa é a maior tragédia: não perceber que precisamos dEle. O maior perigo não é a conta bancária vazia, o casamento em crise ou os filhos rebeldes. O maior perigo é quando tudo está tão bem que nos sentimos autossuficientes.

Essa mentalidade está presente em muitos cristãos hoje. Gente que vive um “evangelho de Laodiceia”, onde a independência é valorizada e a confiança em Deus é secundária. Um evangelho que ensina que basta seguir algumas regras para ter um casamento feliz, um trabalho estável e uma vida “abençoada”. Quando tudo está certo, a oração se torna rara, a dependência de Deus diminui e a frieza espiritual cresce.

Jesus nos alerta sobre essa ilusão na parábola do rico insensato (Lucas 12:16-21). Um homem acumulou tantas riquezas que decidiu construir celeiros maiores para guardar tudo. Mas Deus lhe disse: “Louco! Esta noite pedirão a sua alma; então, quem ficará com o que você preparou?”

Ser chamado de louco por Deus é algo sério. Louco é quem acha que pode viver sem Deus. Louco é quem acredita que sua segurança está nas posses, no trabalho, no casamento ou no próprio esforço. O evangelho de Laodiceia é um evangelho de independência, e não de fé.

No entanto, a graça de Jesus ainda está disponível. Ele repreende e disciplina aqueles que ama. Em Apocalipse 3:18-19, Ele aconselha a igreja a comprar dEle ouro refinado, roupas brancas para cobrir sua nudez e colírio para enxergar a verdade. Mas como comprar algo de Cristo se o dinheiro humano não serve para nada no Reino de Deus? O que Jesus oferece não pode ser comprado com riquezas terrenas. Ele oferece graça, santidade e verdadeira visão espiritual.

No final da carta à igreja de Laodiceia, Jesus faz um convite:

“Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei e cearei com ele, e ele comigo.” (Apocalipse 3:20)

Jesus não rejeitou Laodiceia completamente. Ele os exortou, os confrontou, mas ainda estava ali, batendo à porta. O Evangelho nos confronta, nos faz olhar no espelho e enxergar nossa miséria, mas também nos oferece esperança. A boa notícia é que, apesar de quem somos, Jesus nos estende a mão em graça e misericórdia.

A questão é: vamos continuar vivendo como se não precisássemos dEle, ou vamos abrir a porta e permitir que Ele transforme nossa vida?