O crescimento espiritual é um dos maiores desafios da vida cristã. Assim como o corpo cresce por natureza, a alma e o espírito precisam avançar em cada estágio da vida. Contudo, o que se vê com frequência é o oposto: homens e mulheres que, cronologicamente adultos, ainda carregam no coração reações, comportamentos e decisões típicos de crianças. A infância guarda memórias únicas, os amigos, as travessuras, as correções do pai e da mãe, as cicatrizes no joelho de tanto cair. Tudo isso é lindo e necessário. O problema surge quando essa fase não é deixada para trás.
É exatamente sobre isso que o autor de Hebreus fala no capítulo 5, a partir do verso 11. O diagnóstico é duro: “Vocês se tornaram lentos para aprender.” Não se trata de uma crítica passageira. Trata-se de um alerta sobre um dos maiores dramas da igreja moderna: a ausência de crescimento espiritual real e contínuo.
O Drama da Estagnação no Crescimento Espiritual
A igreja avança um pouco e recua dois passos. Amadurece em uma área e, logo depois, revela uma infantilidade completa em outra. Esse ciclo de inconstância não é algo novo, mas tornou-se especialmente visível em nosso tempo.
O historiador Edward Gibbon, ao escrever sobre o declínio do Império Romano, aponta um dos grandes causadores dessa decadência: o abandono dos princípios e valores morais ensinados às gerações. Os romanos substituíram a educação moral por um excesso de entretenimento e prazer. Por isso, quando os alicerces começaram a ser ignorados, o império inteiro entrou em colapso, não de uma hora para outra, mas gradualmente e silenciosamente.
O mesmo padrão se repete na vida espiritual. As infantilidades que deveriam ter sido superadas permanecem enraizadas. A porta da infantilidade deveria ter sido aberta para deixá-la ir embora. No entanto, ninguém a abriu, e os ciclos continuam.
João Calvino, há quase 500 anos, já alertava para isso com uma imagem poderosa: seria ridículo um construtor que dispende todo o esforço no alicerce e nunca se preocupa em erguer o edifício. As bases são essenciais, mas existem para sustentar algo maior. Quem se acomoda nos primeiros princípios da fé e nunca avança desperdiça o fundamento que recebeu.
Tardio em Ouvir é Preguiça
O autor de Hebreus retorna repetidamente ao mesmo ponto, do capítulo 2 ao capítulo 5: não sejam tardios em ouvir. Aqui aparece uma revelação incômoda. A expressão grega traduzida como “tardio em ouvir” carrega o sentido de preguiça.
Preguiça em ouvir. Preguiça em aprender. Preguiça em colocar em prática.
Trata-se da mesma preguiça da criança que, ao ser chamada para lavar a louça, responde “já vou” e não vai. Ou do filho que sai de casa sem o guarda-chuva, mesmo com a mãe avisando que vai chover, e chega encharcado. A preguiça espiritual funciona da mesma forma: Deus fala, a Palavra é pregada, o conselho é dado, e nada muda. Afinal, ouvir de verdade exige disposição, e disposição é o oposto da infantilidade.
Quem não ouve, não aprende. Quem não aprende, não coloca em prática. Por isso, quem não coloca em prática permanece exatamente onde estava, independentemente de quantos anos passou dentro de uma igreja. O crescimento espiritual, portanto, começa pela disposição de ouvir.
A Hora de Alimentar os Filhos
O autor de Hebreus usa uma imagem simples e poderosa: leite e alimento sólido. Há uma fase em que o leite é necessário, pois a criança precisa dele para sobreviver e crescer. Porém, chega um momento em que o leite não basta. O alimento sólido precisa entrar. Quem ainda depende apenas do leite depois de certo estágio sinaliza que algo não avançou como deveria.
Na prática familiar, isso se traduz de forma muito concreta. Pais e mães que não desenvolveram convicções sólidas sobre a fé chegam a um momento crítico: o filho adolescente bate à porta com perguntas sobre sexualidade, relacionamentos, identidade e propósito. A dispensa, no entanto, está vazia. Não há alimento sólido para oferecer.
Quando isso acontece, outros entram para oferecer o que os pais não têm. O que chega de fora raramente é nutritivo. É chips. É refrigerante. Agrada por um momento e causa dano a longo prazo.
Eli e Davi são dois exemplos bíblicos que ilustram essa falha com precisão. Um sacerdote e um rei, cada um colheu consequências dolorosas dentro de suas próprias casas porque não foram diligentes em alimentar os filhos no momento certo. Ambos tinham posição, mas não tinham alimento para dar quando mais importava.
A pergunta que fica é direta: o que você tem para oferecer quando seu filho chegar até você com fome de verdade?
Quando a Dispensa Está Vazia
Vale transpor essa imagem para o ambiente da igreja. Quando um novo convertido busca conselho, pede direção e quer discernir entre um caminho e outro, ele está pedindo alimento. Se quem deveria ajudá-lo também nunca buscou o crescimento espiritual de forma consistente, a resposta que recebe é o vazio de uma dispensa que nunca foi abastecida.
Por isso, a infantilidade não é apenas um problema pessoal. Ela se torna um problema geracional. O pai que nunca cumpria a palavra cria um filho que também não cumpre. A mãe que nunca ouviu os filhos forma adultos que não sabem ouvir. Os ciclos se repetem silenciosamente, de geração em geração, até que alguém decida interrompê-los.
Jonathan Edwards, ao refletir sobre sua própria trajetória, escreveu que se propunha sempre a perguntar, após períodos de dificuldade, o que aquilo havia produzido nele. Essa postura reflexiva é o oposto exato da infantilidade, que reage, culpa, foge e repete os mesmos erros. Os imaturos não fazem reflexão sobre si mesmos. Em vez disso, transferem para outros o peso das próprias escolhas.
Já Era para Sermos Mestres no Crescimento Espiritual
Paulo, escrevendo aos Efésios no capítulo 4, descreve o problema de quem nunca amadurece: são como crianças levadas de um lado para o outro pelas ondas, jogadas para cá e para lá por todo vento de doutrina. Inconstantes. Sem raiz. Vulneráveis a qualquer influência que apareça com boa embalagem.
Não é coincidência que os falsos mestres proliferem onde há falsos discípulos. Onde não existe maturidade, há espaço para manipulação. Além disso, quem não aprendeu a discernir aceita qualquer coisa, e quem não tem convicções sólidas move-se com qualquer vento.
O autor de Hebreus dizia que já era tempo daqueles cristãos serem mestres. Não no sentido acadêmico de um título conquistado após anos de pós-graduação, mas no sentido de alguém adestrado na Palavra, que a internalizou, aplicou à vida real, errou, se levantou, foi corrigido e cresceu. Alguém que já deveria estar ensinando outros, em vez de ainda precisar que alguém ensine os rudimentos elementares da fé.
O autogoverno é uma das marcas do mestre. Ele não espera que outros façam o que é sua responsabilidade. Ora sem precisar que alguém crie o espaço espiritual para ele e cuida da própria vida, das próprias responsabilidades e da própria casa. Não porque é autossuficiente, mas porque entendeu que crescer faz parte do chamado.
O Discernimento que Vem da Prática Constante
O alimento sólido, segundo o texto de Hebreus, é para os adultos que, pelo exercício constante, tornaram-se aptos a discernir o bem e o mal. O discernimento não cai do céu de repente. Pelo contrário, ele é construído e desenvolvido pela prática repetida das disciplinas espirituais, e esse processo é o próprio crescimento espiritual em ação.
Quem ora regularmente, lê a Palavra com consistência, busca bons conselhos e permanece inserido em uma comunidade de fé está, dia após dia, construindo a capacidade de discernir. Dessa forma, quando uma decisão difícil se apresenta, essa pessoa consegue perceber o que é armadilha e o que é oportunidade, o que é verdadeiro e o que é apenas aparência.
Em contraste, quem nunca cultivou essas disciplinas não tem base para decidir bem. Daí vêm as separações crescentes no meio cristão, as decisões precipitadas e os casamentos que começam com expectativas infantis e terminam em frustração. Daí também vêm os pais que transferem para os filhos responsabilidades que são suas, porque no depósito que possuem não foram encontradas as virtudes necessárias.
Ferramentas Práticas para o Crescimento Espiritual
Existem caminhos concretos para esse processo de amadurecimento. Os catecismos, por exemplo, serviram como instrumentos que a igreja usou por séculos para instruir gerações nas bases da fé. O Catecismo de Heidelberg, o Catecismo Maior e o Menor de Westminster, o Catecismo Batista de 1693. Perguntas e respostas simples e práticas que ensinam quem é Deus, quem é Jesus, o que o Espírito Santo faz e o que significa viver como cristão. Estão disponíveis na internet gratuitamente e representam um ponto de partida concreto para quem quer romper com a superficialidade.
Além das ferramentas, porém, o que realmente move esse processo é uma decisão. A decisão de não ser mais aquela pessoa grande que reage com birra quando não é reconhecida, que some quando é confrontada e que busca mimos espirituais em vez de alimento sólido. A decisão de abrir a porta da infantilidade de dentro para fora e dizer, com honestidade: isso precisa ir embora.
Crescer dói. Ser corrigido incomoda. Assumir responsabilidades cansa. Todavia, esse caminho, e não outro, leva à maturidade real. Forma pais e mães capazes de alimentar os filhos quando eles chegarem com fome verdadeira. Produz discípulos que não se movem com qualquer vento de doutrina.
O Salmo 42 descreve alguém que anelava pela presença de Deus com toda a profundidade do coração, não pela superfície, não pelo entretenimento espiritual, mas pela profundidade real. Esse é o convite: investir no próprio crescimento espiritual, avançar em direção ao que é sólido e verdadeiro, e deixar para trás, de uma vez por todas, o que já deveria ter ido embora há muito tempo.