Existe uma tragédia maior do que não acreditar na volta de Jesus. Acreditar nela e viver como se ela não tivesse nenhuma importância. Essa é a reflexão central que Apocalipse 22:7 provoca em cada crente: “Eis que venho em breve. Feliz é aquele que guarda as palavras da profecia deste livro.” A questão, portanto, não é apenas crer na parusia. É deixar que essa crença reordene a vida por inteiro.
Contudo, para que a volta de Cristo tenha peso real na existência cotidiana, é preciso saber quem é o Cristo que volta. Porque um “deus” diminuto, pequeno, moldado à feição dos próprios desejos, não interfere em nada. Não corta a agenda. Não tira o sono. Não confronta. E, no fim, não é o Deus da Bíblia.
O “deus” Diminuto Que Não Interfere
Ao longo da história, a humanidade construiu deuses à sua feição. Friedrich Nietzsche, em 1882, escreveu sobre um personagem fictício que sai à rua em plena luz do dia com uma lamparina, gritando: “Cadê Deus? Nós o matamos.” Nietzsche não negava a existência de Deus com essa metáfora. Afirmava, de forma provocativa, que aquela sociedade do século XIX havia eliminado a ideia de um Deus soberano, absoluto, capaz de interferir na realidade e transformar a cosmovisão humana.
Quase 150 anos depois, a situação não é diferente. Na pós-modernidade, a espiritualidade foi costumizada. Cada pessoa monta seu próprio conjunto de crenças, palatável aos próprios desejos. O resultado é um “deus” que não julga, não corrige, não governa, não confronta e não retornará. Um deus sem maiúscula, porque não ocupa o lugar de Senhor sobre nada.
Quando a volta de Jesus cabe dentro dessa caixa, ela perde qualquer capacidade de provocar vigilância. Afinal, quem esperaria com alegria a chegada de alguém que não muda nada?
A Espera com Deleite Começa por Saber Quem Volta
Apocalipse 22:7 não fala apenas de brevidade. Fala de felicidade. “Feliz é aquele que guarda as palavras da profecia deste livro.” Há um deleite prometido para aqueles que esperam com consciência do que estão aguardando. Martinho Lutero expressou isso de forma precisa: “Viva como se Cristo tivesse morrido ontem, ressuscitado hoje e fosse voltar amanhã.”
Esse estado de vigilância alegre nasce de saber quem é o Cristo que voltará. Não um mestre, não um profeta, não um conselheiro espiritual. O alfa e o ômega. O leão da tribo de Judá. O cordeiro que foi morto. Aquele que governará com cetro de justiça e diante de quem toda joelho se dobrará. Esse Cristo não pedirá licença ao retornar. Ele chegará como noivo, como juiz, como rei.
Assim, a espera não é passiva nem ansiosa no sentido negativo. É ativa, como a do noivo que se prepara para buscar a amada. Como a do pai que organiza o quarto para o filho que chegará. Como a de quem aguarda férias tão sonhadas. Há deleite porque há clareza sobre quem está vindo.
A Parábola das Dez Virgens e o Azeite que Não se Empresta
Em Mateus 25, Jesus narrou a parábola das dez virgens para ilustrar exatamente o que significa aguardar com vigilância. No casamento judaico da época, o noivo saía para preparar a morada e retornava, às vezes após um ano, de noite e sem aviso prévio. As dez virgens tinham a função de iluminar o caminho do noivo com lamparinas até conduzi-lo à noiva.
Todas as dez eram virgens, ou seja, estavam num estado de pureza. Todas tinham lamparinas, o instrumento necessário. No entanto, cinco guardaram azeite suficiente para quando o noivo chegasse. As outras cinco não se prepararam da mesma forma. Quando o noivo chegou tarde da noite, as imprudentes perceberam que o azeite havia acabado e pediram às prudentes que emprestassem. A resposta foi direta: não é possível emprestar.
Esse detalhe carrega um ensinamento que não pode ser suavizado. A relação com o Espírito Santo, simbolizado pelo azeite, é intransferível. Nenhum pastor, cônjuge, pai ou mãe pode oferecer ao outro aquilo que somente Deus concede pessoalmente. A vigilância é uma responsabilidade individual. O CPF de cada um responde sozinho diante do Cristo que volta.
Dormindo na Hora Errada
Um dos elementos mais perturbadores da parábola é que todas as dez virgens dormem. Todas. Não apenas as imprudentes. Isso aponta para um estado de apatia que afeta indistintamente aqueles que estão dentro da comunidade de fé. Dormir não é apenas descanso. É negligência quando a hora exige vigilância.
Segunda Samuel 11:1 registra o momento mais grave da vida de Davi com uma frase aparentemente simples: “Na primavera, época em que os reis saíam para a guerra, Davi, porém, permaneceu em Jerusalém.” Era a época certa para agir. Davi, no entanto, descansava. Dali surgiu o pecado com Bate-Seba, a morte de Urias e as consequências que marcaram a casa de Davi por gerações.
O padrão se repete. Eli dormiu quando deveria corrigir os filhos. Salomão dormiu quando abriu o coração para contaminações que Deus havia proibido. Paulo, consciente desse perigo, escreveu em Efésios 5:14: “Desperto, ó tu que dormes, levanta-te dentre os mortos e Cristo resplandecerá sobre ti.” O chamado é urgente porque o sono espiritual tem consequências geracionais. Pais e mães que dormem criam filhos sem discipulado. Igrejas que dormem perdem a capacidade de iluminar o caminho do noivo.
Vigilância Não é Medo, é Preparo
Encerrar esse assunto com medo seria desvirtuar o ponto central. Matthew Henry, pastor presbiteriano do século XVII, escreveu algo que resume bem a postura correta: “Não sabemos quando o Senhor virá, mas sabemos como devemos ser encontrados quando ele vier.”
Essa frase transforma a espera. Não é necessário calcular datas ou se angustiar com prazos. É necessário, porém, viver de tal forma que a chegada repentina do Cristo não seja surpresa desoladora, mas encontro esperado. A prudência das cinco virgens não estava na capacidade de prever a hora, mas na decisão de se preparar independentemente da hora.
Tozer afirmou que a expectativa da volta de Cristo é o grande antídoto contra o amor ao mundo. Quem espera verdadeiramente o Cristo que governa e julgará todas as coisas não consegue se acomodar indefinidamente nas paixões passageiras desse mundo. A vigilância reordena os afetos, porque quem sabe quem está chegando não consegue fingir que nada mudará quando ele chegar.
O “deus” diminuto não provoca nada disso. Por isso, não basta acreditar que Jesus voltará. É preciso saber quem é esse Jesus, deixar que ele ocupe o lugar de Senhor sobre a vida inteira, e viver cada dia como quem guarda o azeite aceso, pronto para iluminar o caminho do noivo quando ele finalmente chegar.