Um lugar de amor e perdão

Não estou falando de arquitetura, paredes ou estruturas físicas. Falo de algo muito mais essencial e poderoso: lares e famílias que podem transformar o mundo. Talvez isso pareça distante ou até impossível para muitos. Afinal, transformar o mundo parece algo grandioso demais, ainda mais quando consideramos nossas limitações financeiras, emocionais ou estruturais. Mas a transformação de que falo não é aquela proclamada pelo mundo, com seus critérios de sucesso e influência. É uma transformação profunda, espiritual, que começa dentro das nossas casas, regada por amor e perdão.

Se as nossas casas fossem, de fato, governadas por esse amor e perdão, imagine o quanto de sofrimento poderia ser evitado. Quantas separações, divórcios, violências domésticas, feminicídios, infanticídios, vícios em drogas ou em tecnologia seriam prevenidos? Quanto do que ouvimos nos noticiários diariamente deixaria de existir? Se as famílias fossem ambientes onde o amor e o perdão caminhavam como irmãos gêmeos, quantas feridas deixariam de ser abertas?

O exercício diário do amor e do perdão deve ser tão natural quanto o café da manhã ou o levar dos filhos à escola. Algo que faz parte do cotidiano, dos nossos hábitos, quase automático. No entanto, muitos de nós sequer nos damos conta de sua ausência, porque nos acostumamos a viver sem ele.

Desde o início da história humana, com a queda relatada em Gênesis 3, o pecado manchou o coração do homem. A relação entre Adão e Eva foi manchada e, a partir daí, todas as relações humanas carregaram essa contaminação. Por mais que existam explicações acadêmicas ou sociológicas, no fundo, o verdadeiro problema sempre foi e continua sendo o distanciamento do homem em relação ao seu Criador. Essa relação vertical, entre o homem e Deus, precisa ser restaurada primeiro, para que as relações horizontais possam ser saudáveis.

Sem o coração regenerado e transformado pelo Espírito Santo, nenhum marido será verdadeiramente fiel à sua esposa, e nenhuma esposa será verdadeiramente fiel ao seu marido. O segredo não está em técnicas de convivência, em treinamentos de relacionamento, mas na regeneração do coração humano.

Durante anos como advogado de família, presenciei inúmeros divórcios e separações, a maioria delas com raízes profundas nessa ausência de relacionamento verdadeiro com Deus. Muitas vezes, falar de Deus em meio a esses conflitos era visto como um assunto de religião, destinado a pessoas simples ou idosas. Uma mentira que o inimigo planta para afastar ainda mais os corações de sua verdadeira cura.

Se você foi perdoado por Jesus, deve também perdoar os que estão ao seu redor. Se você foi amado por Jesus, é chamado a amar com esse mesmo amor. Mas sabemos que o amor e o perdão não podem coexistir com orgulho e inveja. O evangelho não é apenas um conjunto de regras ou um código de conduta. Como disse João Calvino, o evangelho é uma doutrina de vida.

Não é fácil. Não é natural retribuir o bem àqueles que nos fazem mal. Pense nos colegas de trabalho, nos amigos, nos ambientes escolares. Pense nas vezes em que sofreu bullying ou injustiças. Nossa tendência natural é revidar, buscar vingança. Mas essa natureza é inclinada ao pecado desde o nascimento. Como diz o livro de Provérbios, a estultícia está ligada ao coração da criança. Assim, mesmo desde pequenos, já somos inclinados ao erro.

E mesmo que você diga: “Pastor, você não conhece minha história. Meu pai traiu minha mãe. Minha mãe me abandonou. Eu fui ferido profundamente.” Eu sei que as dores são reais e profundas. Não desejo minimizar a dor de ninguém. Mas o que a Palavra de Deus nos ensina é que o perdão é libertador. Aqueles que não perdoam vivem em uma prisão emocional, tornando-se pessoas amarguradas, tristes e vitimistas.

Paulo, escrevendo aos Colossenses, exorta: “Suportem uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros.” Ele não está apenas sugerindo, mas instruindo um caminho de vida santa. E quando lemos histórias bíblicas como a de Jacó e Esaú, vemos o poder transformador do perdão. Jacó, após ter roubado a primogenitura de Esaú, encontra seu irmão anos depois com temor. No entanto, ao invés de vingança, Esaú o recebe com perdão. Antes desse encontro, Jacó já havia lutado com Deus e seu coração foi transformado. Já não era mais o enganador, mas Israel, aquele que luta com Deus e prevalece.

O perdão não é um evento único, mas um processo diário, semelhante ao aprendizado de uma criança que cai, levanta e tenta novamente. Jesus nos ensinou na oração do Pai Nosso: “Perdoa as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores.” E Paulo descreve o amor em 1 Coríntios 13: “O amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” O amor está intrinsecamente ligado ao perdão e exige responsabilidade e compromisso.

Dietrich Bonhoeffer, teólogo alemão, falava sobre as “penúltimas coisas” — instituições que não existirão no céu, como a igreja e a família. No céu, não haverá mais necessidade de proclamação do evangelho, nem casamentos. Aqui, porém, enquanto vivemos na terra, essas instituições são essenciais, e nelas o amor e o perdão devem ser praticados continuamente.

Infelizmente, até mesmo dentro das igrejas, temos visto o crescimento de crimes sexuais e violências domésticas. Como homens que se dizem servos de Deus podem agir assim contra suas esposas e filhas? A resposta está no fato de que muitos apenas se vestem de religiosidade, mas nunca tiveram o coração verdadeiramente transformado. Carregam um coração de pedra, não um coração regenerado.

Nos distraímos com tantas coisas fúteis, achando que a solução está em métodos parentais modernos ou em treinamentos familiares. Mas como dizia Abraham Kuyper, não adianta consertar as esquadrias de um prédio torto. O problema é estrutural. Somente Cristo pode transformar o coração de pedra em carne.

Deus não nos chama apenas para o ativismo ou para ocuparmos nossas agendas com coisas corretas. Ele chama nossa atenção para o primeiro amor, como advertiu à igreja de Éfeso em Apocalipse: “Tenho contra ti que abandonaste o primeiro amor.” Sem essa centralidade em Cristo, todo o restante se torna vazio e insuficiente.

Se a comporta do nosso coração que libera amor e perdão estiver fechada, não conseguiremos perdoar ninguém. E com a mesma medida que julgarmos os outros, seremos julgados. Cada um de nós tem ainda muito a perdoar e liberar. Lembro-me da história da minha avó, que sofreu abusos terríveis de seu pai. Por décadas, alimentou um ódio profundo. Foi apenas quando conheceu a Cristo que conseguiu, mesmo após a morte do pai, perdoá-lo em seu coração e encontrar libertação.

Recentemente, Bono Vox, vocalista do U2, compartilhou sua própria jornada de perdão em uma entrevista com Pedro Bial. Crescido em uma família cristã, Bono falou sobre a transformação que o perdão trouxe à sua vida, inclusive afetando sua voz. Ele afirmou: “Minha voz mudou. Eu era barítono, agora sou soprano. Houve uma transformação interna no meu coração que repercutiu no meu corpo inteiro.” Essa declaração é profunda: quando o coração é transformado, tudo em nós é afetado.

No final das contas, o que realmente importará não serão os títulos que acumulamos, os bens materiais ou as honrarias recebidas. Diante de Jesus, ouviremos: “Servo bom e fiel, pode entrar.” Porque seguimos o caminho do perdão que Ele mesmo trilhou na cruz por nós.

Perdoar não é uma tarefa fácil. Continuamente estaremos diante da tensão entre perdoar e reter o perdão. Mas quando nos aproximamos daqueles que nos feriram, mesmo que fisicamente já não estejam presentes, e liberamos perdão em nosso coração, somos libertos. Não podemos deixar que o esfriamento do coração, como o da igreja de Éfeso, nos impeça de amar e perdoar até nas pequenas situações do dia a dia.

O primeiro amor é o amor que perdoa. Precisamos urgentemente voltar a ele.